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Há
pessoas que me perguntam por que escrevo, pois se o preço da
vida se paga é vivendo, impávido, e recordando fiel o
que dela foi dor ou foi contentamento.
Acontece que naquela manha de abril, em que minha mãe deu-me
a luz, Deus tinha no céu um grande estoque de almas . Almas que
teimavam em desencarnar, embora ele as encarnava obstinadamente. Suicidavam-se
sem que tivesse cumprido seu tempo na terra.
E assim Ele ia ficando cansado daquela teimosia.
Naquele dia, Deus teve uma idéia. Pegou por acaso uma boa dúzia
de almas. A de um filósofo, a de um imbecil, a de uma criança,
a de um rebelde, a de um caipira, a de um velho, por fim. Pegou bambem
a alma de um místico, de um sábio, de um amante a de um
cético. Ensacou-as , todas juntas em um corpo só.
A luta de umas com as outras impede a desintegração. Assim
que uma prevalece sobre as demais, espia para fora pela janela dos olhos.
Ora é a criança que emerge, ora o místico, ora
o idiota. E o corpo que elas moram e batalham nessa experiência
curiosa de Deus, é o amor.
Eu escrevo, porque a alma que mais se manifesta , é a do poeta.
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