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Descoberta
feita por pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) nos municípios
de Lagoa Santa e Pedro Leopoldo, Região Metropolitana de Belo Horizonte,
coloca Minas Gerais entre os principais centros arqueológicos do mundo.
Escavações no Parque Estadual do Sumidouro revelaram a existência do
primeiro sítio brasileiro, em campo aberto, de paleoíndios, agrupamento
humano da época da pedra lascada, que viviam ao relento, fora de cavernas.
Instrumentos de trabalho encontrados às margens da Lagoa do Sumidouro
eram o que faltava para comprovar que os primeiros habitantes da região
já haviam deixado os abrigos.
Os
trabalhos de escavação fazem parte do projeto de pesquisa Origem e Microevolução
do Homem nas Américas e têm no comando o pesquisador e bioantropólogo
Walter Neves, coordenador do Laboratório de Estudos Evolutivos Humanos
da USP. Iniciadas em 2003 e divididas em quatro etapas, as análises
arqueológicas apontam indícios de que a região do Parque do Sumidouro
serviu de lar para os primeiros grupos de humanos que povoaram o Brasil
central, há 8,3 mil anos. Estudos a serem realizados nos próximos cinco
anos e novas escavações ainda vão investigar os hábitos dessas populações
antigas e o uso de instrumentos de captura ou caça de alimentos.
PRESERVAÇÃO O coordenador das escavações, Astolfo Gomes
de Araújo, arqueólogo, geólogo e pesquisador associado do Laboratório
de Estudos Evolutivos Humanos da USP, disse que fósseis de humanos não
foram encontrados nessa região porque as condições ambientais, a céu
aberto, impedem a preservação de esqueletos. “Desde a época de Peter
Lund, nada mais havia sido descoberto fora de abrigos e cavernas. A
dois metros de profundidade, encontramos artefatos de pedra lascada,
usados há mais de 8 mil anos, que permitem questionar se os primeiros
habitantes da América são os Clovis, encontrados nos Estados Unidos
e usuários de uma ponta de lança para caçar. Acreditamos que as primeiras
populações da América do Sul não usavam esse tipo de ferramenta”, disse
ele.
Pesquisas mais recentes do pessoal da
Universidade de São Paulo apontam indícios da existência de culturas
anteriores à dos Clovis e a região do Parque do Sumidouro seria um dos
berços desses antepassados. Trabalhos coordenados pelo pesquisador Walter
Neves também revelam que os paleoíndios, além de viverem fora das cavernas,
aparentemente sobreviviam da coleta de vegetais, ao contrário dos Clovis,
identificados como caçadores que se alimentavam de grandes mamíferos.
Os primeiros passos da viagem pela história dos antepassados na região
de Lagoa Santa foram dados por Peter Lund (1801-1880). O naturalista
dinamarquês encontrou e coletou mais de 12 mil fósseis nessa área, em
escavações entre 1835 e 1845. Mais de um século depois, em 1975, a arqueóloga
francesa Annette Laming-Emperaire descobriu, na mesma região, um crânio
humano, que seria a evidência mais antiga do homem na América.
Convicto dessa teoria, o professor Walter Neves iniciou um estudo de
comparação de crânios de todo o mundo com os de Minas e pôs à prova
uma teoria mundial sobre o assunto. Segundo o pesquisador, as descobertas
mineiras eram mais parecidas com os africanos e australianos que com
os asiáticos, como se acreditava antes.
Essa tese de Neves ganhou destaque em 1998, com a análise de um crânio
descoberto na década de 1970, na missão franco-brasileira coordenada
por Laming-Emperaire. O fóssil, apelidado de “Luzia”, é considerado
o ser humano mais antigo do continente, com 11,5 mil anos. “Os paleoíndios
são diferentes dos índios atuais que conhecemos no Brasil, com traços
mais próximos dos negros. Em julho de 2008, retomaremos as escavações
em Lagoa Santa e novas peças podem ser descobertas”, afirmou Astolfo
Araújo.
PARQUE Para evitar atos de vandalismo e outras ameaças
à área de pesquisa no Parque Estadual do Sumidouro, a equipe de arqueólogos
fechou, no último fim de semana, as valas e trincheiras abertas durante
as escavações. A visitação monitorada a essa região de estudos, no entanto,
será possível a partir de dezembro de 2008, quando já estará em funcionamento
a infra-estrutura dessa unidade de conservação. Um decreto publicado
em abril deste ano pelo governo de Minas determina a elaboração de um
projeto administrativo e de preservação ambiental do parque, dentro
do Plano de Governança Ambiental e Urbanística da Região Metropolitana
de Belo Horizonte.
Segundo o gerente do Parque do Sumidouro, Rogério Tavares, um levantamento
fundiário dos 1,3 mil hectares da reserva ambiental está sendo elaborado
para redefinir os limites da área. “Desde que foi criado, o parque sofreu
várias invasões, por isso vamos incorporar regiões ainda preservadas
quando a unidade de conservação for efetivamente implantada. Até o fim
do ano que vem, vamos ter um centro de visitações, trilhas guiadas até
as grutas, Casa de Fernão Dias e Capelinha de Nossa Senhora do Rosário,
projetos de educação ambiental e um conselho consultivo”, disse Rogério.
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PRÉ-HISTÓRIA
EM MINAS
• Peter Lund encontra e coleta mais de 12 mil fósseis na região de Lagoa
Santa, entre 1835 e 1845. Em 1837, descobre, em Matozinhos, restos do
homem fóssil. Seis anos depois, escava a Gruta do Sumidouro e acha vestígios
de grandes animais extintos e restos humanos
• Em 1975, missão franco-brasileira, comandada pela arqueóloga francesa
Annette Laming-Emperaire encontra crânio humano na região de Lagoa Santa.
Seria a evidência mais antiga do homem na América, teoria encampada
pelo professor da USP Walter Neves, que, depois de comparar crânios
de todo mundo com os de Minas, mostrou que eles eram mais parecidos
com os africanos e australianos, e não com os asiáticos, como dizia
a teoria mundial sobre o assunto
• A teoria de Neves ganha visibilidade em 1998, com a análise do crânio
de "Luzia" - o crânio descoberto na década de 1970 pela missão
franco-brasileira, a mulher de traços negróides que, até hoje, é o ser
humano mais antigo do continente, com 11,5 mil anos
• 2007- Equipe da Universidade de São Paulo, coordenada pelo pesquisador
Walter Neves, encontra artefatos arqueológicos (instrumentos de pedra-lascada)
no Parque Estadual do Sumidouro. Esse é o primeiro sítio arqueológico
a céu aberto descoberto no Brasil e revela indícios do que pode ser
a cultura mais antiga das Américas - os paleoíndios (grupo de humanos
da época da pedra lascada que vivia fora das cavernas).
Parque Estadual do Sumidouro
Localizado nos municípios de Lagoa Santa e Pedro Leopoldo, na Região
Metropolitana de Belo Horizonte, o parque foi criado em janeiro de 1980,
para garantir a preservação do patrimônio cultural e natural. Com área
de 1,3 mil hectares, a reserva ambiental abriga plantas típicas de cerrado
e mata de galeria, espécies raras, como o pica-pau branco e veado catingueiro,
além de riquezas arqueológicas e paleontológicas. Parte da devastação
da área é provocada pelo turismo em grutas, como a da Lapinha e da Arruda,
e na Lagoa do Sumidouro.
fonte: Jornal Estado
de Minas - 02/08/2007
arquivo da www.lagoasanta.com.br |